Assistir a uma
novela e deixar o seu cérebro aceitar os erros de continuação, os diálogos
rasos e atores-modelos-canastrões, é algo considerado inaceitável a um
intelectual, tanto que se torna um pecado a ser acometido na calada da noite e
quando descoberto passa a ser utilizado como pretexto de uma pesquisa empírica.
Deixar-se mergulhar em uma realidade
paralela e acompanhar dramas que não são nossos é uma forma de dá liberdade a
nossa mente, para viajar pela subjetividade e criar combustíveis para a rotina
empática que consome os nossos dias.
Um Félix da vida, tomado pela sua
crueldade em jogar uma criança em uma caçamba de lixo torna-se um personagem
cativante com suas piadas irônicas e com certo tom cruel e sincero, ao ponto de
se redimir com a pobreza, vivendo um besteirol vendedor de cachorro-quente.
Talvez seja por isso que fins de vilões como a Carminha de Avenida Brasil sejam
mais lindos e bem aceitos, apesar de quebrar o paradigma da morte, loucura ou
prisão, por transcender o lado da justiça previsível para um humanismo que
tende a aceitar o perdão.