| Vista da saída de São pedro da Cipa à Jaciara do alto do Morro |
Por João José
Alencar
Quando chego em
casa, naquela que minha infância e adolescência vivi com euforia, para cada
lado que meus olhos se volta, têm se um pedaço de saudade.
Saudade de um
tempo que com dois cabos de vassoura e um lençol fazia meu palco, onde o
patinho, o cavalo e os boizinhos ganhavam vida. Nesse surgia histórias tão
absurdas para um crítico severo, mas tão lógicas e perfeitas para uma criança,
contente com o aplauso de sua pequena platéia, formada apenas pelas pessoas
mais próximas, que viam naquele espetáculo as qualidades para torná-lo o mais
belo do mundo.
Lembro do morro,
em que cada vez que juntávamos uma maloca, virávamos aventureiros, em que o
verde esmeralda, construía em nossa imaginação enredos de cinema. Com o passar
do tempo tornou-se passeio de família, no abraçar de uma árvore fazia meu rito,
agradecia em meu íntimo, todo o simples que me proporcionava sorrisos.
Seja entre folhas
secas, de mangueiras e até curandeiras, por meio de chás, como decoração do
quintal ou seguranças de galhos em que ficava meu balanço, via em todo o lugar
a chuva brotar vida e em lições maternas aprendia que do corriqueiro dia-a-dia
poderia sempre ter uma descoberta.
Pelo chão de
terra, em que a areia impregnavam na pele, quantas histórias foram vivenciadas,
desde longas caminhadas, sobre um forte sol sem direito a perdão, a retornos
com velas acesas, abençoados pela lua, de uma romaria de poucos pedidos, com
promessas do amanhã de se ter boas lembranças, que por ora sinto que foram
cumpridas.
Seguíamos em
finais de semana, sem fidelidade a datas ou períodos, a estrada para Gleba
Pombal. Na desculpa de visitas a quem parente não era, na espreita do barulho
de quatro rodas, apontávamos com os dedos de uma das mãos solicitando carona e
da outra fazendo figa para que a sorte aliviasse as nossas pernas. Dessa
pequena saga, nossa torcida é para que por atalhos chegássemos a nosso destino,
previamente definido em surtos repentinos, por vontade de desafios.
| Imagem do Cristo Redentor que se localiza entre Jaciara e São pedro da Cipa |
É dessas muvucas.
Das idas ao cristo. Dos cafés do povo simples e hospitaleiro. Das rezas das
benzedeiras. Das leituras da missa. Das fofocas e brigas entre vizinhos. Dos
banhos de rios. Da família reunida todas as tarde em frente à tevê. Destas e de
tantas outras é que sinto saudade.
A
saudade, essa prende e não larga, se os momentos não voltam novos podem ser
criados. Com memórias do passado se apronta o presente, e do velho, lembranças
se concede. Sinto que já não faço parte de todo relato proseado, dessa
lembrança que paira como um náufrago em minha mente. Sou um
pensamento desencontrado, que se recorda de casa como uma âncora para que meus
pés permaneçam em terra firme.
A única coisa que
quero é olhar para frente, mas reconheço que esse aperto, até que faz bem. É
sinal que existe dentro de mim, um homem que não se contenta com o marasmo do
tempo, desafia o importuno e se provoca a declarar o declínio da moralidade
imposta por discursos contraditórios, mantendo um jeito torto de andar, no qual
reside o coração de um menino.
Os seus sonhos,
tão comuns em sua escrita, tão naturais ao seu existir, lhe propicia na
terceira pessoa ou no singular primeiro pronome, faz concreto sua constante
descrição, lhe traz o combustível para ir adiante, para quando quiseres optar
por desistência, cair em lágrimas, para então se erguer e sem se dá por conta
já ter alcançado velocidade para reparar os cacos e quantas vezes for
necessário recomeçar.
*Obs: Esse texto foi escrito em abril de 2014 e só agora resolvi publicá-lo, isso se deve porque dia 30 de Janeiro foi comemorado o dia da Saudade e essas lembranças que tanto me emocionam e são sempre bem vindas refletem bem o que a saudade representa para mim, um misto de saudar o passado, agradecer o presente e esperar com brilho nos olhos o futuro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário