domingo, 1 de fevereiro de 2015

Saudade - âncora para que meus pés permaneçam em terra firme

Vista da saída de São pedro da Cipa à Jaciara do alto do Morro

Por João José Alencar

Quando chego em casa, naquela que minha infância e adolescência vivi com euforia, para cada lado que meus olhos se volta, têm se um pedaço de saudade.

Saudade de um tempo que com dois cabos de vassoura e um lençol fazia meu palco, onde o patinho, o cavalo e os boizinhos ganhavam vida. Nesse surgia histórias tão absurdas para um crítico severo, mas tão lógicas e perfeitas para uma criança, contente com o aplauso de sua pequena platéia, formada apenas pelas pessoas mais próximas, que viam naquele espetáculo as qualidades para torná-lo o mais belo do mundo.

Lembro do morro, em que cada vez que juntávamos uma maloca, virávamos aventureiros, em que o verde esmeralda, construía em nossa imaginação enredos de cinema. Com o passar do tempo tornou-se passeio de família, no abraçar de uma árvore fazia meu rito, agradecia em meu íntimo, todo o simples que me proporcionava sorrisos.
 

Seja entre folhas secas, de mangueiras e até curandeiras, por meio de chás, como decoração do quintal ou seguranças de galhos em que ficava meu balanço, via em todo o lugar a chuva brotar vida e em lições maternas aprendia que do corriqueiro dia-a-dia poderia sempre ter uma descoberta.

Pelo chão de terra, em que a areia impregnavam na pele, quantas histórias foram vivenciadas, desde longas caminhadas, sobre um forte sol sem direito a perdão, a retornos com velas acesas, abençoados pela lua, de uma romaria de poucos pedidos, com promessas do amanhã de se ter boas lembranças, que por ora sinto que foram cumpridas.

Seguíamos em finais de semana, sem fidelidade a datas ou períodos, a estrada para Gleba Pombal. Na desculpa de visitas a quem parente não era, na espreita do barulho de quatro rodas, apontávamos com os dedos de uma das mãos solicitando carona e da outra fazendo figa para que a sorte aliviasse as nossas pernas. Dessa pequena saga, nossa torcida é para que por atalhos chegássemos a nosso destino, previamente definido em surtos repentinos, por vontade de desafios.

Imagem do Cristo Redentor que se localiza entre Jaciara e São pedro da Cipa
É dessas muvucas. Das idas ao cristo. Dos cafés do povo simples e hospitaleiro. Das rezas das benzedeiras. Das leituras da missa. Das fofocas e brigas entre vizinhos. Dos banhos de rios. Da família reunida todas as tarde em frente à tevê. Destas e de tantas outras é que sinto saudade.

A saudade, essa prende e não larga, se os momentos não voltam novos podem ser criados. Com memórias do passado se apronta o presente, e do velho, lembranças se concede. Sinto que já não faço parte de todo relato proseado, dessa lembrança que paira como um náufrago em minha mente. Sou um pensamento desencontrado, que se recorda de casa como uma âncora para que meus pés permaneçam em terra firme.


A única coisa que quero é olhar para frente, mas reconheço que esse aperto, até que faz bem. É sinal que existe dentro de mim, um homem que não se contenta com o marasmo do tempo, desafia o importuno e se provoca a declarar o declínio da moralidade imposta por discursos contraditórios, mantendo um jeito torto de andar, no qual reside o coração de um menino.


Os seus sonhos, tão comuns em sua escrita, tão naturais ao seu existir, lhe propicia na terceira pessoa ou no singular primeiro pronome, faz concreto sua constante descrição, lhe traz o combustível para ir adiante, para quando quiseres optar por desistência, cair em lágrimas, para então se erguer e sem se dá por conta já ter alcançado velocidade para reparar os cacos e quantas vezes for necessário recomeçar.


*Obs: Esse texto foi escrito em abril de 2014 e só agora resolvi publicá-lo, isso se deve porque dia 30 de Janeiro foi comemorado o dia da Saudade e essas lembranças que tanto me emocionam e são sempre bem vindas refletem bem o que a saudade representa para mim, um misto de saudar o passado, agradecer o presente e esperar com brilho nos olhos o futuro.

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