Assistir a uma
novela e deixar o seu cérebro aceitar os erros de continuação, os diálogos
rasos e atores-modelos-canastrões, é algo considerado inaceitável a um
intelectual, tanto que se torna um pecado a ser acometido na calada da noite e
quando descoberto passa a ser utilizado como pretexto de uma pesquisa empírica.
Deixar-se mergulhar em uma realidade
paralela e acompanhar dramas que não são nossos é uma forma de dá liberdade a
nossa mente, para viajar pela subjetividade e criar combustíveis para a rotina
empática que consome os nossos dias.
Um Félix da vida, tomado pela sua
crueldade em jogar uma criança em uma caçamba de lixo torna-se um personagem
cativante com suas piadas irônicas e com certo tom cruel e sincero, ao ponto de
se redimir com a pobreza, vivendo um besteirol vendedor de cachorro-quente.
Talvez seja por isso que fins de vilões como a Carminha de Avenida Brasil sejam
mais lindos e bem aceitos, apesar de quebrar o paradigma da morte, loucura ou
prisão, por transcender o lado da justiça previsível para um humanismo que
tende a aceitar o perdão.
Uma novela, mesmo diante de sua alta
futilidade, ingrediente fundamental para que a torne interessante, permite que
os temas abordados na narrativa, inspirem diálogos e reflexões nas rodas de
conversas e aproxime aqueles que na hierarquia do capitalismo, apesar de um
discurso político agregador, encontram-se distantes de figuras postas no topo.
Na novela, a pobre, o vilão, o rico,
a mocinha invade pelo televisor a vida de seus telespectadores. Faz visita à
vida privada, de acordo com o desejo, daquele que detêm o controle remoto. O
amor e o ódio que essas tramas inspiram são influências tão qual o livro, o
teatro e o cinema ofereceram em outras épocas e, esses ainda que seja
diminutivo, resistem na encolha das capitais e dos projetos de
ensino-aprendizagem.
É interessante ver outras vidas personificadas
em rostos que com o tempo se tornam conhecidos, porque nessa podemos exercer de
forma límpida o mais puro julgamento, estabelecendo torcidas e determinando
desafetos, na certeza que no dia a dia, tais defesas não irão interceder em
nosso mundinho real, esse pelo qual não temos o controle, por mais que
estejamos inseridos no sistema.
Talvez
seja esse o foco do preconceito com o gênero, é difícil aceitar que uma obra de
ficção, com tramas que em algumas situações, passa distante da lógica,
conseguem conquistar e conversar com todas as classes, enquanto a ciência é
visto como um bicho de sete cabeças e ignorada pela massa.
Seria
esse o caso da ciência sair um pouco da sua toca, deixar de falar línguas
estranhas e se pronunciar por meio de metáforas compreensíveis, ao mundo dessas
mentes, em busca de distração.
Na
procura de um meio termo, encontramos o jornalismo, mas para que de fato desempenhe
esse papel, necessita-se da consciência coletiva de que o jornalista enquanto
narrador de histórias, não é ficcionista e muito menos cientista. Cabe a ele,
ser o tradutor do chato e o transformador de ideias sólidas em líquidos para
todos os estômagos.
Portanto,
jornalistas desçam do pedestal, evitem embarcar pelo conto popularesco e se
propõe a de fato fazer entretenimento inteligente, aquele que ensina, em uma
linguagem que supera diálogos rasos, utilizando-se das narrativas que o cérebro
se apaixona sem perceber.
Que
diante desse apontamento se estabeleça a campanha para que o jornalismo seja
irresistível, usando o meio, que melhor se adéqua a um público cada vez mais
exigente, que prefere a ficção por considerar a realidade como arrogante e
pouco suportável.
Equilibrando
esses dois extremos, quem sabe resulte uma fórmula, que permita a profissão
instaurar seu idealismo de prestação de serviços, de uma forma compacta, barata
e eficiente. Trazendo um genérico de boa qualidade, que se utilize do mesmo
efeito do sensacionalismo das tardes policiais, para trazer uma história reflexiva
e gostosa de ver, de ler, de entender.
Em pensar que houve um tempo em que as pessoas que não assistiam televisão não eram intelectuais.
ResponderExcluirVisite também o meu blog: http://bibliaf.blogspot.com.br/
ResponderExcluirSeu blog é encantador, estive a ver e ler algumas coisas, não li muito, porque espero voltar mais algumas vezes,mas deu para ver a sua dedicação e sempre a prendemos ao ler blogs como o seu. Se me der a honra de visitar e ler algumas coisas no Peregrino e servo ficarei radiante, e se desejar deixe um comentário. Abraço fraterno.António.