quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A novela e a ciência - dois pontos para se pensar o jornalismo

Por João José Alencar

Assistir a uma novela e deixar o seu cérebro aceitar os erros de continuação, os diálogos rasos e atores-modelos-canastrões, é algo considerado inaceitável a um intelectual, tanto que se torna um pecado a ser acometido na calada da noite e quando descoberto passa a ser utilizado como pretexto de uma pesquisa empírica.

Deixar-se mergulhar em uma realidade paralela e acompanhar dramas que não são nossos é uma forma de dá liberdade a nossa mente, para viajar pela subjetividade e criar combustíveis para a rotina empática que consome os nossos dias.


Um Félix da vida, tomado pela sua crueldade em jogar uma criança em uma caçamba de lixo torna-se um personagem cativante com suas piadas irônicas e com certo tom cruel e sincero, ao ponto de se redimir com a pobreza, vivendo um besteirol vendedor de cachorro-quente. Talvez seja por isso que fins de vilões como a Carminha de Avenida Brasil sejam mais lindos e bem aceitos, apesar de quebrar o paradigma da morte, loucura ou prisão, por transcender o lado da justiça previsível para um humanismo que tende a aceitar o perdão.



Uma novela, mesmo diante de sua alta futilidade, ingrediente fundamental para que a torne interessante, permite que os temas abordados na narrativa, inspirem diálogos e reflexões nas rodas de conversas e aproxime aqueles que na hierarquia do capitalismo, apesar de um discurso político agregador, encontram-se distantes de figuras postas no topo.

Na novela, a pobre, o vilão, o rico, a mocinha invade pelo televisor a vida de seus telespectadores. Faz visita à vida privada, de acordo com o desejo, daquele que detêm o controle remoto. O amor e o ódio que essas tramas inspiram são influências tão qual o livro, o teatro e o cinema ofereceram em outras épocas e, esses ainda que seja diminutivo, resistem na encolha das capitais e dos projetos de ensino-aprendizagem.

É interessante ver outras vidas personificadas em rostos que com o tempo se tornam conhecidos, porque nessa podemos exercer de forma límpida o mais puro julgamento, estabelecendo torcidas e determinando desafetos, na certeza que no dia a dia, tais defesas não irão interceder em nosso mundinho real, esse pelo qual não temos o controle, por mais que estejamos inseridos no sistema.

Talvez seja esse o foco do preconceito com o gênero, é difícil aceitar que uma obra de ficção, com tramas que em algumas situações, passa distante da lógica, conseguem conquistar e conversar com todas as classes, enquanto a ciência é visto como um bicho de sete cabeças e ignorada pela massa.

Seria esse o caso da ciência sair um pouco da sua toca, deixar de falar línguas estranhas e se pronunciar por meio de metáforas compreensíveis, ao mundo dessas mentes, em busca de distração.

Na procura de um meio termo, encontramos o jornalismo, mas para que de fato desempenhe esse papel, necessita-se da consciência coletiva de que o jornalista enquanto narrador de histórias, não é ficcionista e muito menos cientista. Cabe a ele, ser o tradutor do chato e o transformador de ideias sólidas em líquidos para todos os estômagos.

Portanto, jornalistas desçam do pedestal, evitem embarcar pelo conto popularesco e se propõe a de fato fazer entretenimento inteligente, aquele que ensina, em uma linguagem que supera diálogos rasos, utilizando-se das narrativas que o cérebro se apaixona sem perceber.

Que diante desse apontamento se estabeleça a campanha para que o jornalismo seja irresistível, usando o meio, que melhor se adéqua a um público cada vez mais exigente, que prefere a ficção por considerar a realidade como arrogante e pouco suportável.

Equilibrando esses dois extremos, quem sabe resulte uma fórmula, que permita a profissão instaurar seu idealismo de prestação de serviços, de uma forma compacta, barata e eficiente. Trazendo um genérico de boa qualidade, que se utilize do mesmo efeito do sensacionalismo das tardes policiais, para trazer uma história reflexiva e gostosa de ver, de ler, de entender.

2 comentários:

  1. Em pensar que houve um tempo em que as pessoas que não assistiam televisão não eram intelectuais.
    Visite também o meu blog: http://bibliaf.blogspot.com.br/

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  2. Seu blog é encantador, estive a ver e ler algumas coisas, não li muito, porque espero voltar mais algumas vezes,mas deu para ver a sua dedicação e sempre a prendemos ao ler blogs como o seu. Se me der a honra de visitar e ler algumas coisas no Peregrino e servo ficarei radiante, e se desejar deixe um comentário. Abraço fraterno.António.

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